Policial conta como foi troca de tiros com 'Marcola' na Aldeota

 Policial conta como foi troca de tiros com 'Marcola' na Aldeota

O número "um" do Primeiro Comando da Capital (PCC) já esteve em Fortaleza no início de 2000. Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, na manhã de 20 de fevereiro de 2000 - dois dias depois do roubo na NSV - trocou tiros com a polícia e conseguiu sair ileso. Confira abaixo a entrevista com um policial civil que participou da operação. O depoimento a seguir faz parte da reportagem especial que conta sobre as facções criminosas no Ceará

Como começou a ocorrência que culminou no confronto armado?

Eu estava de plantão, em um domingo, no 2ºDP (Aldeota). Recebemos denúncia sobre uma movimentação suspeita, em um condomínio na Rua Doutor Thomás Pompeu. O delegado pediu para eu e outro inspetor irmos averiguar e saímos em um carro particular. Quando chegamos ao condomínio vi saindo um senhor, que depois seria identificado como um criminoso que os comparsas chamavam de 'Tio'.
Perguntei se ele podia chamar o porteiro ou o zelador, para nos identificarmos e entramos para checar, mas 'Tio' disse que lá não tinha nada disso. Ele olhou para dentro do carro que estávamos e eu desconfiei. Como eu não tinha celular na época fui até um telefone público e liguei para o 190. Pedi para checarem a placa de uma Blazer, que pertencia a ele. A atendente da Ciops disse que a placa era de uma Saveiro, de São Paulo. Pedi reforço da PM e decidi entrar no prédio.

O que fez o senhor decidir continuar a operação naquele momento?

Eu tive uma intuição de que havia mais coisa errada que a placa do carro. O assalto à Nordeste Segurança tinha acontecido poucos dias antes. Eu e meu colega vimos o 'Tio' voltar para o condomínio e sentimos que ele estava incomodado com nossa presença, então decidimos segui-lo. Encontramos com a síndica e o zelador nesse trajeto. Ela entendeu que era a Polícia e me disse que ele andava na Blazer e frequentava os dois apartamentos onde as pessoas suspeitas estavam. A PM chegou, cercou a área e eu e meu colega avançamos, mas já encontramos o 'Tio' descendo as escadas sozinho. Eu me identifiquei como policial e o rendi. Disse que iríamos ao apartamento onde os amigos dele estavam, mas já ouvimos os disparos. Eu e o meu amigo não tínhamos mais o que fazer. Soltei o suspeito, corri e me escondi embaixo de uma escada. Meu colega correu para trás de uma coluna.

Neste momento, o senhor já sabia quem iria enfrentar?

Nós não sabíamos no que aquilo estava se transformando. Houve uma intensa troca de tiros. O reforço da PM estava do lado de fora do prédio atirando em direção ao hall, onde estavam dois dos bandidos revidando com tiros de fuzil. Outros dois bandidos permaneceram no apartamento, avistaram meu colega e começaram a atirar lá de cima. Um dos caras que estava no hall destravou uma granada, e por uma questão de segundos não conseguiu tirar o pino e arremessar contra os PMs. Antes que jogasse o explosivo foi atingido no tiroteio e caiu morto.

Como foi que se deu o encontro com 'Marcola' na troca de tiros?

A Polícia Civil usava revólver e os primeiros policiais que iriam usar pistola tinham sido treinados. Eu tinha sido um deles e recebi a pistola dois dias antes da ocorrência. Mesmo assim não tinha chances, porque eles usavam uma metralhadora, pistolas 9 milímetros e um fuzil AR-15. Eu ainda estava embaixo da escada quando vi uma chance de sair para o confronto. Neste momento, 'Tio' veio em minha direção e dei um tiro na perna dele para contê-lo e efetuei a prisão. Sai para ajudar os outros policiais, mas encontrei o zelador que me avisou que os bandidos nos apartamentos estavam pulando para a rua. Olhei para cima e vi quando um deles pulava do primeiro andar, era o 'Marcola'. Ele estava com um fuzil na mão e atirou para furar o cerco da PM. Pulou para dentro de outro condomínio e a última vez foi visto foi na Avenida Beira-Mar, durante a fuga. Foi o único dos cinco que estavam na troca de tiros que conseguiu escapar. O comparsa dele, identificado como 'Maurício', pulou em seguida, mas quebrou a perna e eu me aproximei para algemá-lo.

Somente estas cinco pessoas ligadas ao PCC estavam no local?

Esse tiroteio aconteceu contra os cinco homens que estavam em um dos apartamentos, mas depois descobrimos que a maior parte do bando estava em outros dois apartamentos, um no mesmo condomínio e o outro na Avenida da Abolição. Fomos até os endereços e apreendemos um verdadeiro arsenal deixado para trás na fuga e coletes balísticos da Nordeste Segurança. Tivemos a certeza que tinham sido eles que praticaram o assalto. O 'Maurício' disse que o dinheiro tinha sido enviado de carro para Juazeiro do Norte, onde um avião particular aguardava para fazer o transporte. 'Tio' foi encaminhado ao IJF, e passou três meses internado. De lá conseguiu ser transferido para o Mato Grosso e fugiu da Cadeia em dez dias.

Como o senhor se sentiu ao saber que tinha enfrentado o PCC?

Depois de tudo eu senti medo, não vou mentir. Fiquei apavorado quando procurei meu colega e não o encontrei. Achei que tivesse morto. Já tinha escutado falar do PCC, mas parecia uma coisa muito distante do Ceará. Eu não fazia ideia de quem era 'Marcola' e do que ele era capaz.

Inspetor Rodrigues
Policial Civil aposentado

Diário do Nordeste

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